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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Fome de Viver (1983)

Título original: The Hunger

País: Reino Unido
Gênero: Horror; Suspense
Ano de produção: 1983
Duração: 99 minutos
Direção: Tony Scott
Trilha Sonora: Denny Jaeger e Michel Rubini
Elenco: Catherine Deneuve; Cliff De Young; Susan Sarandon; David Bowie



A velha e jovem lenda Egípcia de Ankh que busca a juventude eterna, está entrelaçada ao roteiro de The Hunger (1983), o filme marca a estreia de Tony Scott como diretor de cinema, estrelado por David Bowie (John), Catherine Deneuve (Mirian Blaylock) e Susan Sarandon (Dra. Sarah Roberts). A produção do Reino Unido competiu na categoria de melhor filme no Festival de Cannes do mesmo ano, competindo também nas categorias de melhor maquiagem e figurino no Festival Saturn Awards de 1984, festival destinado aos destaques nos gêneros: científica, fantasia e terror em cinema e televisão. Fome de Viver foi o nome que a película recebeu quando foi lançada no mercado cinematográfico brasileiro.
A história inicia-se complexa, sombreada e ocultista, passa-se nos anos 70 em um cenário extravagante do submundo nova-iorquino muito bem representado pelo uso mínimo de iluminação artificial, exagerando nos contrapontos entre sombras e rajadas de luzes, podendo nos remeter ao antigo estilo cinematográfico expressionista alemão. A trilha sonora extraordinariamente inquietante pode ser apreciada desde as primeiras cenas, com aparição destoada do vocalista da banda Bauhaus, Peter Murphy contorcendo-se em uma boate cheia de figuras de estilo pós punks, vestidas com figurinos neogóticos, rodeado de um cenário que exala fotografia exagerada pautada na ausência de cores e no futurismo.


O roteiro do filme é bem contemporâneo, diferente dos roteiros sobre filmes de vampiro que estamos acostumados a assistir, é uma leve adaptação do romance Whitley Strieberescrito por Ivan Davis, tenta nos conduzir na contrapartida dos clichês vampirescos que usualmente são ambientados em castelos góticos, com personagens sobrenaturais com sotaques do leste europeu, presas pontiagudas, e dualidade entre forças sobrenaturais supostamente boas e más. A música Bela Lugosi's Dead (Bela Lugoise está morto) que é apresentada no início do filme, soa como uma espécie de preludio satírico do que está por vim, um anuncio que iremos enterrar de uma vez por todas os resquícios deixados pelo legado dos filmes de horror estrelados pelo famoso ator Bela Lugosi, que interpretou a primeira versão de Drácula (1931) do diretor Tod Browing, também com roteiro adaptado do best-seller homônimo de Bram Stoker.

Na sumula a história se debruça sobre a vida cotidiana de um casal chique gótico do mundo underground nova iorquino, Mirian Blaylock uma linda e sedutora mulher e John um jovem que começa a envelhecer inesperadamente de forma acelerada deixando-o em desespero e colérico diante da indiferença de Mirian, que aparentemente já previa o acontecimento, não se importando com sua situação de aniquilamento e autodestruição. Ele, então, vai em busca da Dra. Sarah Roberts, medica e cientista especializada na busca pelo antídoto que retarda o envelhecimento, entendido por ela como uma "doença" com grandes chances de obtenção da cura. Para desapontamento de John, Dra. Roberts não crê na história absurda que é contada a ela e o ignora friamente. Ao perceber que estava perdendo tempo e ganhando rugas depreciando-se fisicamente John vai embora do consultório. Depois de alguns questionamentos, Sarah percebe que ele não estava louco e tenta voltar atrás o julgamento errôneo que fez da petição desesperada que a ela foi feita. Insistente, Sarah vai até a casa dos Baylocks, mas não encontra John. Misteriosamente, ele havia sumido. Ela, então, conhece sua misteriosa e sensual esposa, Mirian. A partir daí uma relação estranha, estreita e lésbica entre as duas começa e Sarah vê-se envolvida em uma trama perturbadora e inquietante.


O fato de Tonny Scoot ter sido pintor no início da carreira talvez deu bastante ênfase aos belíssimos e raríssimos quadros e obras de arte que são apresentados no cenário durante o desenrolar da trama que tem um estilo impar e uma lentidão atmosférica que não mais seria vista no Cinema depois tão acelerado dos longas posteriores de cunho comercial feitos pelo diretor como Chamas da vingança (2004), Top Gun (1986). Fome de viver é um filme à frente de seu tempo. Interessante, principalmente visualmente, a trilha sonora assinada por Denny Jaeger e Michel Rubini não ficam a desejar pois somos regados desde Bach a Schubert tendo também a belíssima opera de 1883 Lakmé, de Léo Delibes, que lembram muito mais o trabalho refinado na trilha sonora do filme de seu irmão Ridley Scott em Blade Runner (Que abusou de clássicas composições de Vangelis).
O longa não obteve sucesso de público quando foi lançado, nem em anos posteriores, apesar de ter recebido indicações em festivais importantes como o Cannes, foi considerado um fracasso de bilheteria e só veio a ser reconhecido como “cult” muitas décadas depois de sua estreia por críticos e cinéfilos que o assistiram em reedições de DVD.

A forma é constante na película e assumi o papel principal na condução do enredo e na concepção de como o filme é produzido, o roteiro não é totalmente linear, e as vezes torna-se confuso para aqueles que gostam de seguir um cronograma temporal na linha de raciocínio apreciativo, ou na construção das características principais das personagens. São pequenas partes de uma história que vão sendo contadas em meio a uma atmosfera pesada, onírica, com a forma estética lenta e hipnótica triunfando sobre o roteiro, as palavras vampiro, dentes e pescoços, não são mencionadas em nenhum momento durante os noventa minutos de duração, o diálogo entre os personagens é minimalista e baseado geralmente na construção interior das personagens que se afastam totalmente da expectativa do espectador se identificar com qualquer um deles.



A delirante história de paixão e horror reconta a lenda da vida eterna mitológica de Ankh, aqui sanada somente por meio de sacrifícios humanos para garantir a longevidade e ressurreição após a morte. Apresenta cenas desconexas e caóticas. Traçando sutilmente paralelos entre a vida humana e a vida animal. Dois tipos de vidas tão distintos, porém, paradoxalmente semelhantes. Ambas ligadas pela "doença" do envelhecimento e pela luta de supera-lo e o preço da busca e conquista pela vida eterna embalados pela poesia bela, amaldiçoada e macabra que formam um tecido de fundo para o filme.

Por: Gui Oliveira




Nota:90/100

domingo, 21 de fevereiro de 2016

DOCUMENTÁRIO JANELA DA ALMA (2001)

RELATO DE APREÇIÇÃO:
 
A VISÃO E OS SENTIDOS DO VER.


Direção: João Jardim e Walter Carvalho
Título Original: Janela da Alma
Ano de Lançamento: 2001
Origem: BRA

Tempo de Duração: 73 minutos

A visão e os sentidos do ver, são discutidos por 19 personalidades de todo mundo. Em Janela da Alma, os diretores João JardimWalter Carvalho, entrevistam diversos artistas, intelectuais que tem diferentes relações com o sentido da visão: alguns são cegos, outros míopes, outros estrábicos.  As entrevistas são feitas com o intuito de compreender um pouco mais sobre esse sentido tão abstrato que é a visão. Sem os freios do subdesenvolvimento político, histórico, antropológico, nacionalista que o cinema brasileiro vem rotineiramente abordando em seus métodos de produzir roteiros de documentário. O filme toma como tema central, uma discussão universal que intriga muitos críticos e filósofos durante toda a história da humanidade até os dias atuais. Os entrevistados recorrem à filosofia, à medicina, as artes e a neurociência para tentar responder essas questões.

Da mesma forma em que o curta se debruça com o intuito de capturar diversas fontes e opiniões sobre a visão e percepção, Jaus discorre em seu ensaio, sobre o entendimento teórico de como outros filósofos vieram ter sobre como percebemos e entendemos o mundo através dos sentidos da visão e da percepção.  Ele aborda desde Platão e sua tese do mito da caverna que trata a questão do conhecimento e da ignorância do ser humano, a respeito das nossas concepções e “criações de mundo”, conceitos esses que são formados e nos induz a construir valores de juízo equivocados. O filme, também aborda várias outras formas de enxergar o mundo com as dificuldades de assimilar novas descobertas, estimulando assim outros sentidos além da visão; para reconhecimento do mundo e de si próprio dentro do mundo.



Na contemporaneidade valorizamos a cultura audiovisual e o excesso de informações imagéticas que nos cercam, estamos nos tornando um pouco “cegos”.  Maurice Merleau Ponty e a fenomenologia da percepção, tenta nos explicar a respeito dessas reflexões, em sua teoria ele defende que: quando algo se revela frente a consciência humana o homem observa e o entende a partir do ponto de vista de sua capacidade perspectiva.

A Teoria da Sociedade do Espetáculo do filosofo, marxista, bakuninsta Gui Debord também se torna importante para que se possa construir uma linha de raciocínio solida ao apreciar o enredo do filme. A espetacular idade se torna o tema principal da discussão acerca do mundo que se é criado com imagens visíveis para os olhos e invisíveis para o sentido do ser. A teoria Guidebrodiana diz que: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação.”

Carlos Drumond de Andrade, poeta contemporâneo brasileiro, também abordou no seu poema: O Homem; As Viagens, sobre esse dilema eterno e polifônico da percepção humana e sua capacidade de transformação através do compreender através dos sentidos.

“...Restam outros sistemas fora
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem (estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo...”




Janela da Alma, consegue fisgar e instigar o pensamento humano sobre como enfrentar o paradigma da fruição que foi se modificando através dos séculos inclusive com o progresso técnico que está cada vez mais inserido em nossa sociedade, modificando o tempo e valor de exposição dos espectadores para com uma única obra.

Por: Gui Oliveira



Nota:100/100


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Annie Hall

Annie Hall, de Woody Allen

Direção: Woody allen
Título Original: Annie Hall
Ano de Lançamento: 1977
Origem: EUA
Tempo de Duração: 93minutos



"Annie Hall" contém mais astúcia intelectual e  referências culturais do que qualquer outro filme a ganhar o Oscar de melhor filme, e  ganhar o prêmio em 1977 inimaginavelmente venceu  "Star Wars", um resultado impensável hoje. A vitória marcou o início da carreira de Woody Allen como um cineasta respeitável (o seu trabalho anterior foi engraçado, mas ligeiro) e sinalizou o fim da era 1970 de ouro do cinema americano. "Annie Hall" arrecadou cerca de US $ 40 milhões - menos do que qualquer outro filme da época , mas foi vencedor no oscar ultrapassando filmes que tiveram um orçamento e um retorno nas salas bem maior que as dele.
Vê-lo, 25 anos após a sua estreia em abril de 1977, fico surpreso pela forma como cena após cena tem uma familiaridade instantânea de que tudo é muito presente e contemporâneo. Algumas de suas linhas consegue penetrar na consciência geral, elas são conhecidas por inúmeras pessoas que nunca viram o filme, como a salada de frango Jack Nicholson na fala de "Five Easy Pieces". E este filme pode ser onde a maioria das pessoas ouviram o primeiro comentário do Marx de que ele não gostaria de pertencer a um clube do que tê-lo como membro.
Alvy Singer, interpretado por Allen no filme, é o modelo para muitos de seus outros papéis - neurótico, sarcástico, reclamão, um romântico que não é inseguro sobre sexo, tanto quanto duvidoso sobre todos os
 outros problemas. Annie Hall, interpretada por Diane Keaton, define a forma de muitas das namoradas de Allen na tela: bonita, inteligente, desmiolada, a jovem, com carinho gradualmente desaparecendo em exasperação. 
Alvy Singer, como tantos outros personagens  de Allen, acompanha todas as experiências da vida com um comentário em execução. Ele vive para falar sobre a vida. E seus monólogos interiores não oferecem apenas a análise, mas a alternativa. Depois de fazer amor com Annie, pela primeira vez, Alvy rola, exausto e esgotado, e observa: "Como Balzac disse: 'Lá vai uma outra novela."
Alvy é mais esperto do que as regras básicas de Hollywood atualmente permitem que um personagem possa ser. Observando ainda os filmes mais criativos recentemente, torna-se consciente de que há uma censura sutil a ser imposta, em que os personagens não podem falar de qualquer coisa que o público pode não estar familiarizado. Isso gera códigos por parcelas que o publico não quer ver e emoção cheias de ideias, eles usam as frases de efeito ao invés de gracejos. Considere a seqüência famosa onde Annie e Alvy estão em pé na fila para o cinema e há um rapaz atrás deles pontificando altamente sobre Fellini. Quando ele começam a praguejar o trabalho de McLuhan Alvy perde a paciência, o confronta, e, em seguida, triunfalmente produz Marshall McLuhan se por trás de um cartaz de filme para informar-lhe: "Você não sabe nada do meu trabalho!" Essa cena seria aberração no cinema de hoje na presunção de que “ninguém” na plateia teria ouvido falar de Fellini ou McLuhan.

"Annie Hall" é construída sobre esse diálogo, e os centros de conversa é como um  monólogo. Porque é apenas sobre todos um dos melhores filmes do Allen, porque ganhou o Oscar, pois é uma comédia romântica, poucos telespectadores provavelmente perceberão o quanto ele é composto de pessoas que falam, simplesmente falando. Eles andam e falam, sentam e conversam, vão a boates, almoçam, fazem amor e falam, falam para a câmera, ou se lançam em monólogos inspirados como associação de Annie, livre como ela descreve a sua família para Alvy. Este discurso de Diane Keaton é tão próximo da perfeição, como tal, um discurso pode ser provável, culminando com a memória de seu tio George , adormecer e morrer enquanto espera na fila por um peru de graça.
Alvy e Annie se apaixonam pelas suas sensibiliadades e pelas suas habilidades de conversação, eles são atraídos um pelo outro não por feromônios, mas pelo companheirismo pela novidade. Na primeira conversa que eles têm, após a reunião como parceiros de tênis, eles caem naturalmente no tênis verbal:

Alvy: Você quer uma carona?

Annie: Ah, por quê? Uh, você tem um carro?

Alvy: Não, eu estava indo pegar um táxi.

Annie: Ah, não. Eu tenho um carro.

Alvy: Você tem um carro? Não estou entendendo. Se você tiver um carro, por isso, então por que você diz, 'Você tem um carro? " como se você quisesse uma carona?

Annie: Eu não, eu não, eu não sei. Eu não estava. ... Eu tenho um VolksWager lá fora. (Para si) "Que sim, idiota. Gostaria de uma carona? "

Alvy: Claro. Qual caminho você está indo?

Annie: Eu? Oh, centro da cidade.

Alvy: Merda ... Eu estou indo...

Annie: Bem, você sabe eu estou indo para lá também.

Alvy: Você só disse que estava indo ao centro.

Annie: Sim, bem, mas eu poderia ...

Este não é apenas o diálogo, é um ato de casal no processo de descoberta de si mesmo

Quando Annie manifesta a idéia de morar com ele:
Alvy: Eu não quero viver com você!? de quem foi a idéia?

Annie: Minha.

Alvy: Sim, foi sua, na verdade, mas eu aprovei-la imediatamente.

Que Annie Hall é o grande amor da sua vida é claro, e o filme é um flashback do monólogo de abertura na qual ele observa que, infelizmente, um ano antes eles estavam apaixonados, o filme é sua análise do que correu mal, e sua resposta é: "ele encontrou a felicidade, mas não pôde aceitá-la." 

Este é um filme que estabelece o tom de constante alternância entre tons: As opções que podem refletir o espírito inquieto do cineasta, afastando o sujeito aparente de uma cena para encontrar o ângulo que revela a piada. "Annie Hall" é um filme sobre um homem que está sempre procurando brechas na perfeição. Que pode transformar tudo em uma piada, e desejar que ele possa trazer alegria.

Por: Gui Oliveira 

Nota:100/100

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Vencedor


O Vencedor (The Fighter), de David O. Russell

Direção: David O. Rusell
Título Original: The Fighter
Ano de Lançamento: 2010
Origem: EUA
Tempo de Duração: 115 min

Um garoto/menina/homem, pobre e oprimido por todos os alicerces sociais, encontra no boxe uma saída pra uma vida melhor ou uma forma de redenção. O filão dos filmes de esporte implica, na maioria das vezes, em narrativas de superação. Essas, por sua vez, implicam em trabalhos didáticos e burocráticos, que começam e terminam sempre no mesmo lugar. O Vencedor, filme dirigido pelo eclético e talentoso David O. Russell, parte da premissa básica do gênero, mas consegue com muita habilidade subverter muito dos clichês desse tipo de filme.

A primeira vista, O. Russell parece estar fora do seu campo de conforto, deixando de lado o cinismo e o humor negro que permeiam sua curta filmografia, para adentrar no clássico drama americano. E o que mais intriga é que ele consegue entregar um aparente filme de gênero, com suas marcas mais fortes muito bem colocadas, mas deixando sobressair, com muita sutilidade, sua marca mais precisa: a subversão dos elementos com os quais constrói seu filme.

O diretor que já havia transformado o que aparentava ser mais uma história sobre a Guerra do Golfo, em uma trama sobre ganância contada com muito humor negro no ótimo Três Reis. Ou até mesmo em no bobinho Huckabees, que ele usa das comédias de espionagem para abordar e aplicar com muito humor a história da filosofia e do charlatanismo que procura se afirmar como filosofia, numa critica ácida a inúmeras seitas religiosas e até mesmo a indústria da auto-ajuda.

Adaptado de uma história verídica, O Vencedor se passa nos ano 80 e retrata a jornada do boxeador Micky Ward (que se tornou um dos maiores nomes do esporte daquela década), um jovem operário e lutador amador que passou anos na sombra da fama decadente do irmão – um ex-boxeador que perdeu o que tinha por conta do vício nas drogas – até vir a ganhar o título mundial de boxe. Mas o que O. Russell entrega mesmo, por trás do filme de esporte, é uma forte lavagem de roupa suja entre os membros de uma família disfuncional.

Não por acaso, a hierarquia familiar se torna um dos elementos mais fortes dentro do filme, onde sua estrutura instável acaba por se tornar o motor da trama. Alice Ward, a matriarca, é uma mulher cínica e interesseira, que tem todos os membros da família sob suas asas. Subjulga o marido, faz a cabeça das filhas, finge não enxergar a decadência do filho problemático. E oprime o caçula, tratando como um produto. Ironicamente, Micky Ward, se torna tanto o mártir, na ultima chance de reconstrução daqueles laços, quanto ovelha negra, quando decide virar as costas para irmão e mãe. Um personagem complexo interpretado com muita humildade pelo ator Mark Whalberg, que parece lúcido acerca das suas limitações, abrindo espaço para que Melissa Leo, Christian Bale, Amy Adams e até Jack McGee brilhem nos seus respectivos papeis.

Enquanto Amy se despe da inocência das suas feições para criar uma mulher forte, que se torna o principal apoio de Micky, Melissa veste a inescrupulosidade e acerta o ponto com a mãe cínica e dominadora. A grande incógnita é Christian Bale, magérrimo no papel de Dick, que remete diretamente ao processo físico que o ator sofreu para protagonizar o filme O Operário. O visual marcante e o fardo que carregam fazem Dick, quase, ser uma imitação mais fraca de Trevor Reznik, se Bale não os distinguisse perfeitamente com gestos, olhares e entonação de voz muito bem demarcada, fazendo cada um desses personagens serem únicos entre si.

E sem somente deixar seu trabalho ser um mero apanhado de grandes atuações, David O. Russell demarca talento em um filme de grande ritmo. Não buscando o que se faz constantemente nos filmes de boxes, lutas apreensivas marcadas pelo clímax. As lutas aqui são de uma naturalidade extrema, possibilitadas pela linguagem televisiva na qual o diretor narra praticamente todo o filme. Hora assumindo o ponto de vista de um daqueles documentários feitos para TV (como realmente ocorre) e nas outras inserindo o tipo de edição e até mesmo iluminação que se vê em exibições esportivas de boxe.

David O.Russell mostra em O Vencedor ser um diretor que entende um dos princípios mais básicos do cinema, a manipulação da realidade. Não só o entende, mas o aprofunda. Entendendo os vícios do cinema, e, desse modo, transformando o que é clichê em novidade. Como um bom autor.


por: Junior Holden


Nota:85/100

domingo, 30 de janeiro de 2011

Inverno da Alma



Inverno da Alma (Winter's Bone), de Debra Granik

Direção: Debra Granik
Título Original: Winter's Bone
Ano de Lançamento: 2010
Origem: EUA
Tempo de Duração: 100 minutos

O cinema independente americano é, literalmente, uma caixinha de surpresas. Já tendo se tornado a algum tempo uma interessante e eficaz base de apoio às grandes empresas, como Fox e Warner (que mantém um selo para produções de baixo custo, Fox Searchlight e Warner Independent, respectivamente), passou nos últimos anos por uma estagnada repetições de idéias – do que fora o ápice dessa produção nos anos 90 – como os filmes de problemas familiares, figuras excêntricas e crises existenciais. Não que tenha sido um grave problema, essas produções serviram pra revelar gente muito interessante como Noah Baumbach, Jason Reitman, atores como Joseph Gordon-Levitt e Ellen Page, mas a massificação tornou o produto indie americano de extrema previsibilidade. Eis que ora ou outra um trabalho visceral vem pra chacoalhar essa indústria e suas idéias.

Inverno da Alma, vencedor do Festival de Sundance do ano passado, é uma daquelas raras preciosidades. Com uma temática superficialmente muito simplória, sem apelar para tramas com multiplots ou personagens caricatos, desenvolve seu conflito num pulso mais do que firme e adentra, nos levando consigo, dentro da sua trama infernal de maneira tensa e palpável. O trabalho de direção da pouco conhecida Debra Granik (que também assina o roteiro ao lado da produtora do filme, Anne Rosellini), com um curta e outro filme pouco conhecido no currículo, Down to the Bone, é de uma força extraordinária, unindo uma narrativa tensa em praticamente todo o filme com o espaço e clima opressor, sem se esquecer de aprofundar os personagens.


A história se passa no interior dos EUA, na fria região das Montanhas de Ozark, onde uma jovem de 17 anos, Ree Dolly, cuida dos irmãos e da mãe doente numa rústica propriedade perto da floresta, e se vê intimidada quando recebe a notícia que a família esta prestes a perder a casa se o pai desaparecido não se apresentar a justiça. O mote da trama, como é de costume, abriria espaço para um desenvolvimento exagerado dessa situação, mas em Inverno da Alma a bomba explode em silêncio e feições fechadas. O roteiro é de uma sutilidade absurda, condizendo muito bem com a situação, com as características das pessoas daquela região, do seu clima e posicionamento geográfico. Ao mesmo tempo em que o drama nunca deixa de estar devidamente claro e intenso.

O clima, um literal inferno gelado, se mostra um dos grandes elementos da construção do filme. Além de criar todo um espaço opressivo e deslocante, ainda consegue caracterizar de forma exímia o perfil psicológico e físico da população daquela região. A construção dos personagens, que sofrem um claro processo de zoomorfização, é algo sublime. Andam em clãs, como os lobos, de rostos fechados e muitas vezes enervados, se comunicando um com os outros de maneira bruta, na sua auto-defesa. John Hawkes, protagonista do ótimo Eu, Você e Todos Nós, entrega no papel de Teardrop uma atuação muito sincera e precisa, levando sua ao extremo sua figura duvidosa. Mas é nas mãos da novata Jennifer Lawrence o lado mais forte de Inverno da Alma.


Lee é uma adulta precoce, prepara o café, leva as crianças pra escola e as ajuda no seu dever, cuida do horário dos remédios da mãe e corta lenha, caça e esfola, ensina o manuseio da arma. Representando não menos do que 3 figuras, a materna, paterna, sem esquecer de ser a irmã, a garota ainda tem de enfrentar uma jornada na busca do pai. Em certo momento lhe perguntam: “Não há nenhum homem para fazer isso pra você?”. Numa resposta seca e curta ela diz: “Não, não há.” O diálogo em si define claramente todos os momentos de Lee dentro do filme, uma figura de aparência frágil que tem de abdicar de todas as virtudes da sua idade para se embrenhar numa busca obscura em torno não só da sua necessidade de sobrevivência, mas também de sua família, como uma fêmea protegendo sua ninhada. Jennifer Lawrence, com seus 19 anos e participações em séries de sucesso, constrói uma das personagens mais marcantes desses últimos anos, um trabalho que vai desde a firmeza de suas expressões faciais a um tom grave na voz, permeada pelas nuances de medo e seus poucos momentos de fraqueza. É um trabalho monstruoso e que surpreende pra uma atriz de tão pouca idade. Em anos anteriores tivemos Carey Mulligan ou Ellen Page, em atuações sinceras, mas que não chegavam a atingir um nível tão alto quanto o de Lawrence, que faz intimidar muitas veteranas.

Inverno da Alma, pequeno de início, acaba por ser uma fria pancada no estômago. Um suspense árido e silenciosamente gritante.
por: Junior Holden

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90/100



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Bebê de Rosemary




O Bebê de Rosemary (Rosemary Baby - 1968), de Roman Polanski

Direção: Roman Polanski
Título Original:Rosemary Baby
Ano de Lançamento: 1968
Origem: Estados Unidos
Duração: 136 minutos



 O Bebê de Rosemary começa inocentemente com uma canção simples, tocada nos créditos de cor rosa, enquanto a câmera faz uma panorâmica sobre o horizonte de Nova Iorque, finalmente plana tranquilamente sobre o edifício Dakota no West Side de Manhattan (chamado Edifício Branford no filme). Creio eu que somente quem leu o romance best-seller de Ira Levin em 1968 e lembra-se do estilo meio gótico em que o mesmo é narrado acertaria que o filme se trata de um assunto excêntrico como o culto satânico dando voltas e reviravoltas em seu fabuloso enredo.
Cerca de trinta anos mais tarde, outros fatos e acontecimentos externos podes dar-lhe ainda mais o indicio de um filme de suspense e terror, isso prova muito que os efeitos e os fatos históricos evoluíram. O Edifício Dakota agora é mais famoso como o local onde John Lennon foi assassinado. O diretor Roman Polanski teve uma trágica história desde que o filme foi feito com a sua mulher famosa sendo assassinada pela seita de Manson no ano seguinte, e de estar envolvido com casos de pedofilia por ter tido relações sexuais com uma menor varias vezes por sinal e ultimamente está sendo um foragido da Policia.

Apesar de todos esses fatos seguidos emprestarem uma aura mística para Rosemary's Baby, o próprio filme já tem um material próprio que ajuda a torná-lo um dos melhores filmes de terror da história. Ironicamente, para um filme que é classificado como terror, quase não há sangue, sustos, ou indícios de monstros horríveis. E essa é a mágica do filme de Polanski, onde o verdadeiro terror é criado na mente do expectador.

Lí em vários lugares que na época Polanski queria fazer um filme sobre Esquiar, e foi levado a dirigir O Bebê de Rosemary pelo produtor Robert Evans, que havia ficado impressionado com o trabalho de Polanski em The Vampire Killers Fearless. Evans foi tentado por Polanski em fazer um filme sobre esqui, mas ele já tinha lido o roteiro de O Bebê de Rosemary, e não deu o braço a torcer.
Como em Chinatown, Polanski traz de volta o grande segredo até o último momento em que ele acrescenta camadas de suspeita e suspense continuamente.
Começamos com um casal de jovens, um ator de classe media chamado Guy Woodhouse (John Cassavetes) e sua esposa Rosemary (Mia Farrow), em busca de um apartamento em Manhattan. Naturalmente, eles acabam encontrando o que vimos na cena de abertura e estão fazendo coisas normais de um jovem casal, como a belíssima cena onde estão a fazer amor no chão de madeira antes da mobília chegar.


Existem alguns indícios de que pode haver perigos à espreita no prédio antigo. Um velho amigo, Hutch (Maurice Evans), conta a Guy sobre as irmãs Trench canibais que habitaram o local, e sobre um bruxo chamado Adrian Marcato que foi assassinado no pátio.
Os vizinhos parecer um pouco bizarros demais: sons de estranhos cânticos atravesando a parede, e a intrometida Castevet Minnie (Ruth Gordon) com uma atuação mais que perfeita e seu marido Roman (Sidney Blackmer).
Rosemary fica grávida numa noite em que ela parece estar bêbada por causa do jantar festivo que fez com o marido. Mas este não é um período de gestação normal e comum como de outras mulheres. Rosemary perde peso, corta seu cabelo para acentuar a sua palidez, e suporta a dor excruciante no início da gravidez. Não é apenas uma gravidez bizarra, mas seu marido parece ser mais protetor do médico que ele é de sua esposa, e logo Rosemary suspeita que haja uma reunião de culto no prédio e que vão sacrificar seu filho como uma versão moderna das irmãs Trent. Para revelar muito mais não seria justo para os leitores que não viram esse filme ainda.

Acima de tudo, dou todo o mérito a Roman Polanski pela sua maravilhosa forma de desdobramento da narrativa. A visualização do romance de Levin é impecável desde o mobiliário até o figurino que foi utilizado. Estruturalmente falando este filme seria muito parecido com os de Hitchcock, criando uma sensação contínua de tensão, provocando a plateia a prestar atenção a cada cena, pois nada é desperdiçado. Ao contrário de Hitch, Polanski faz seu próprio roteiro aqui, e faz um trabalho mensurável.
Polanski acrescenta um toque de realismo a algumas cenas-chaves, ele contratou um consultor especialista da Igreja de Satanás em troca de permitir que ele apareça em uma cena crucial.

Polanski construiu seu filme em uma época onde não existiam as maravilhas dos efeitos especiais hoje utilizados na maioria dos filmes de terror, e por que não dizer todos os filmes de terror. Grande parte do horror é criado por imagens em um filme de ação diferenciado, por negativa a referências visuais ao catolicismo e Deus, por desorientar câmeras de mão, e com uma trilha sonora que transforma a canção de ninar inocente para uma assombração e abstrações gritando. "Este não é um sonho! Isso está mesmo acontecendo!" Rosemary grita: Mas isso é real?


Farrow atua este filme extremamente bem. Ela é uma personagem simpática, e permite-nos entrar no seu mundo nos seus sentimentos de mãe protetora, para que nós sintamos como ela todo o trajeto percorrido de agonia até a cena crucial do olhar horrorizado que ela nos dá no final. Aqueles poucos segundos de puro horror são indeléveis em minha mente e são evocados sempre que ouço seu nome ou vejo seu rosto.

Recebendo uma grande quantidade de elogios é a incomparável Ruth Gordon, que ganhou o Oscar de atriz coadjuvante merecidamente, Polanski reuniu um elenco excelente no filme por sinal.
Apesar de ser um roteiro excelente existem algumas falhas que podemos notar: os vizinhos tentam acobertar vários casos referentes a Guy ser tão obcecado com sua carreira e não prestar atenção a Rosemary, mas cada vez que o script vai se desenvolvendo Guy corre para os vizinhos para partilhar os seus segredos íntimos. Isso só me pareceu um pouco sem sentido.

Lembro-me de ser devidamente assustado por Rosemary's Baby, quando eu vi pela primeira vez no inicio desse ano, e o filme ficou na minha lembrança por um bom tempo. Apesar do filme de Polanski não me causa qualquer medo ou fobias temporárias, como Psychose (medo de tomar banho em quartos de motel), ele fez-me ciente de cultos estranhos. Eu gostei o suficiente para comprar um DVD ontem, que eu acabei de assistir novamente. Assim, a nível pessoal, eu posso recomendar O Bebê de Rosemary. Os fãs do horror não devem esperar uma alta quantidade de material sobre a tela para assustar exteriormente, porque o horror acontece principalmente no interior de suas cabeças. Muitas vezes essa é a melhor espécie de horror.

Por: Guga Oliveira
Nota: 100/100